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quinta-feira, 10 de março de 2011

Lepra

“Alguém estava a apressar os cortinados (…) Olhos húmidos, inteligentes, temperados pelo tempo e por um conhecimento demasiado vasto do sofrimento humano. Não havia dúvidas. Era M.Das. O poeta aproximou-se mais, e eu agarrei-me à borda da mesa num movimento convulsivo.
Estava perante uma coisa saída de um tumulo(…)
Dentes cintilavam, trocistas, num riso incontrolável, pois os lábios estavam tão apodrecidos, que deles só restavam pólipos de carne flácida. Nariz, já quase não tinha. Fora devorado, até se transformar numa membrana húmida e pulsante de carne esfolada, incapaz de esconderas duas aberturas que conduziam ao crânio (…) As crostas escamosas, irregularmente distribuídas, cobriam-lhe a cabeça, deixando aqui e ali, nos ângulos mais estranhos, tufos erectos de cabelos brancos. A orelha esquerda era uma massa informe (…) faltavam dois dedos da mão direita, partidos a meio da articulação. Um pedaço de desperdício cobria o que sobrava da mão esquerda, sem conseguir esconder as zonas putrefactas à volta do pulso, onde eram perfeitamente visíveis os músculos e os tendões. A cabeça maciça bamboleou como se o pescoço fosse incapaz de a sustentar. Os farrapos sobre o peito subiram e desceram num ritmo apressado. O quarto encheu-se com os sons aflitos das nossas respirações.


- Lepra! – Sussurrei, mas foi como se estivesse a gritar. A chaminha ondulou, ameaçando-se extinguir-se. Uns olhos castanhos líquidos, cujas pálpebras tinham sido particularmente comidas, observaram-me do outro lado da lamparina…”

- Descrição do poeta M.Das, Cançao Kali, 1985, p.155/156

Crença, um Parecer de Doença

“Ainda no outro dia, não muito longe daqui, uma senhora de idade e a filha já crescida, ambas, segundo consta, boas cristãs, cozinharam o neto no forno para afastarem os demónios quer o faziam chorar à noite. “

“Um dos meus estagiários é um parente distante daquele aluno do liceu da Califórnia que violou e assassinou a namorada, e depois convidou os catorze amigos para virem visitar o cadáver durante um período de 3 semas. Um deles, até deixou cair um tijolo na cabeça da rapariga para se certificar de que estava mesmo morta. Ninguém se lembrou de avisar a Policia.”

-Canção de Kali, Dan Simmons, 1985 , pag. 232

domingo, 6 de março de 2011

Teoria do Poder

"Mal! O mal não existe. Não existe a violência. Só existe o poder. O poder é o único grande princípio organizador do universo, Sr.Luczak. O poder é a única realidade à priori. Toda a violência que receamos, só a receamos porque existe o poder. A violência é poder. Tudo o que receamos, só receamos porque existe uma força a exercer poder sobre nós. Todos queremos livrar-nos desse medo. Todas as religiões não passam de tentativas para conseguir o poder sobre as forças que ameaçam controlar-nos. Mas Ela é o nosso único refúgio. Só a Devoradora de Almas nos pode conceder a abhaya mudras e relegar o medo, pois só Ela tem esse poder absoluto. Ela é o poder incarnado, uma força que escapa ao tempo e a compreensão. (…) – Crueldade? Com certeza que um poeta sentimental como você, um poeta que gosta de falar as verdades eternas, deve saber que aquilo a que se chama crueldade é a única realidade que o universo reconhece. A vida subsiste através da violência.”

(…)

Luczak: " - recuso-me a aceitar um coisa dessas!"
Das: " - nunca provou do vinho do poder? Nunca foi violento?”

Conversa entre o poeta M.Das e o poeta Robert C. Luczak, em Cançao Kali, de Dan Simmons, 1985, p 161 e 162, Edições Saída de Emergência

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